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Roberto Seitenfus aposta em discurso crítico para se eleger vereador em Porto Alegre.
Entrevista concedida ao site MIX BRASIL - UOL


Urna
21/8/2008
Por Hélio Filho

O característico discurso de crítica e constante luta por mudanças sociais dos partidos socialistas permeiam toda a plataforma de campanha do candidato a vereador em Porto Alegre (RS) Roberto Seitenfus (P-Sol). Ele une seus anos de militância junto aos LGBTs, principalmente no Grupo Desobedeça (importante grupo militante LGBT do Rio Grande do Sul), com a ideologia de mudança do sistema capitalista para formar um discurso a favor dos direitos humanos e de maior representatividade das minorias na política brasileira.

Conhecido como Roberto do Desobedeça, ele diz não se vender por cargos políticos e cita sua expulsão do Partido dos Trabalhadores (PT) como prova cabal dessa idoneidade. “Tenho uma ideologia e não faço política para almejar um benefício”, dispara. Em entrevista ao Mix, ele defende um maior envolvimento dos homossexuais na política para realizar mudanças efetivas no Brasil na questão dos direitos humanos e preconceito.

Como surgiu a idéia de se candidatar à Câmara Municipal?
Na verdade, sou antes de candidato militante do Grupo Desobedeça GLBT e dos Direitos Humanos no Rio Grande do Sul. Em 2006, fui candidato a deputado estadual pelo P-Sol, com Heloísa Helena e Luciana Genro, sendo o quinto mais votado do partido em Porto Alegre, com uma campanha simples, mas declaradamente GLBT. A proposta da candidatura aconteceu, mais do que a vitória no pleito eleitoral, para mostrar nossas dificuldades, delimitar um caráter de classe, pois temos a convicção de que o cerne do problema não está na condição sexual apenas, mas isso é um agravante no preconceito que sofremos.

Por que você acha que é uma boa opção para o eleitor?
Antes de ser gay, militante do Grupo Desobedeça GLBT e da coordenação da Parada de Porto Alegre, tenho uma ideologia e não faço política para almejar um benefício. Se esse fosse o caso, não teria sido expulso com Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro do PT, teríamos ficado e estaríamos muito bem em algum ministério, mas não. Não nos vendemos. Fazer política é acreditar que este é um caminho para ajudar na conscientização das pessoas de que devemos nos mobilizar, sair às ruas, lutar por melhores salários, educação, saúde, moradia, pois só isso é que pode ajudar no fim do preconceito, uma mudança na sociedade. A maioria dos candidatos de partidos tradicionais podem discursar na defesa da comunidade GLBT, mas não querem mudar nada, todos esses partidos têm em seus quadros pessoas envolvidas nos esquemas do mensalão, do banqueiro (Daniel) Dantas, dentre tantos outros esquemas de corrupção. São todos iguais!

Quais suas propostas para os LGBTs?
Podemos citar diversas propostas, como aulas de direitos humanos aos guardas municipais, fiscalização da lei que pune quem discrimina, mas o fundamental é construir um mandato à serviço da luta dos trabalhadores e da juventude. Uma candidatura abertamente gay, mas mais do que a condição sexual, um gabinete que seja um espaço para as mobilizações por melhoria e que tenha a coragem de denunciar os políticos corruptos, sonegadores e, principalmente, propor a diminuição no salário exorbitante dos parlamentares.

Como elas foram construídas?
Militei no Fora Collor (movimento que culminou no impeachment do ex-presidente), mas tive minha maior expressão militante enquanto presidente do grêmio estudantil da Escola Paula Soares. De lá para cá, passei pelo Grupo Nuances e desde 1992 construímos o Grupo Desobedeça GLBT, sempre baseado na certeza de que é nossa a luta por melhores salários, condições de trabalho, melhor educação e denúncia do que está errado, apontando para o que deve ser feito, por exemplo. Por que até hoje não se cobrou dos grandes sonegadores seus impostos? Por que comprometemos 40% do nosso PIB com o pagamento dos juros da dívida externa?

Como pretende colocá-las em prática se vencer a eleição?
Primeiro é cobrar a imediata diminuição no salário dos parlamentares, pois vivo com bolsa auxílio de estagiário na minha área, Direito, portanto, por que um parlamentar que teoricamente deveria se candidatar por um ideal deve viver com o salário hoje recebido? Segundo é a revogação do mandato daqueles que descumprem o que prometem na campanha. Fora estas questões fundamentais, é ser um parlamentar que não se curve àqueles que ataquem as minorias e aos direitos humanos, quero estar, como hoje, ao lado de cada mobilização dos trabalhadores e da juventude.

Você acredita que representa o movimento LGBT? Por que?
Sou militante desde 1999, quando comecei no grupo Nuances. Acho que junto com os demais militantes do Grupo Desobedeça somos representantes, assim como os demais grupos de Porto Alegre. Me sinto capaz de ir para o embate político com homofóbicos de plantão, como até hoje temos feito, mesmo sem um mandato. Vejamos o conflito no centro comercial Nova Olaria, onde jovens são discriminados por não terem dinheiro para freqüentar um espaço democrático e de propriedade do Montepio dos funcionários municipais. Mais, cadê o Programa Brasil Sem Homofobia do Governo Lula, que foi aprovado com pompas, mas que não saiu do papel?

Quais são as principais três coisas que o eleitor deve observar em um candidato antes de votar nele?
Histórico do partido e do candidato
Que ele não fuja dos debates
Qual seu principal objetivo em obter um cargo político

Você considera importante os LGBTs se envolverem na política? Por que?
Considero fundamental qualquer pessoa se envolver nos debates políticos, cobrar daqueles que foram eleitos e ajudar na mudança, pois seja quem estiver na prefeitura ou no governo que for, somente mudará algo com muita pressão popular, pois, infelizmente, o cerne do problema está na concepção de Estado, que propicia beneficiar quem já tem dinheiro em detrimento da miséria e utilizando a máquina pública para seu benefício. Ter gays, lésbicas, bissexuais, transexuais assumidos na política fortalece nossa visibilidade e é um "tapa na cara" do preconceito, por si só já é uma vitória.

 

 
 
   
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